Hello, Hello!
O que Nuno viu em Silicon Valley que o resto do mundo ainda não viu?
Na segunda-feira, dia 16 de março, Laura Constantini recebeu Nuno Pedro no NIDO Insights. Nuno é fundador da Chamaeleon, passou 30 anos entre engenharia, McKinsey e venture capital em Silicon Valley. Ele é sócio do Ashish Aggarwal, Kaufmann Fellow e, entre tantos feitos, foi empreendedor e executivo de tecnologia e investidor da Grishin Robotic. Nuno participará do South Summit no Brasil, mas compartilhou com a Nido, em primeira mão, informações que valem a pena ser lidas com atenção. ![]()
Laura: Nuno, o que está acontecendo nos Estados Unidos que o resto do mundo ainda não percebeu?
Nuno: Antes de responder, preciso fazer uma ressalva importante. Não podemos considerar os Estados Unidos como uma só coisa. Nova York é extremamente avançada em fintech. Los Angeles historicamente tem muita força em consumer. Seattle e Austin crescem, ainda são pequenos, mas crescem. E no centro de tudo, San Francisco e o Vale do Silício seguem sendo o único lugar no mundo que compete de verdade com Pequim. ![]()
Dito isso, a resposta é inteligência artificial. ![]()
Estamos num momento de excesso. Capital demais, empresas demais, promessas demais. Como aconteceu em outros grandes ciclos tecnológicos, a maioria não vai sobreviver. Mas o que restar não só vai garantir a infraestrutura para o crescimento das próximas plataformas e re-definir a economia da próxima década. O problema é que o ruído está muito alto. E quem não sabe onde olhar vai perder o que importa. ![]()
Na Chamaeleon, desenvolvemos nossa própria tese de IA. E uma das conclusões mais claras é que já é tarde demais para buscar modelos fundacionais transversais. Esse é o jogo dos grandes: Anthropic, OpenAI, Google, Microsoft, Meta. Eles têm uma vantagem enorme, e desta vez os incumbentes foram muito ativos, investindo tanto em startups quanto na própria infraestrutura. ![]()
Onde vemos uma oportunidade real é na camada de aplicações de IA. É onde mais empresas vão morrer, sim, mas também é onde mais valor vai ser criado. Pense no que aconteceu com a App Store em 2008. Todo mundo dizia que não haveria economia de apps. E então o mundo mudou. A mesma coisa vai acontecer com IA. ![]()
"Pense no que aconteceu com a App Store em 2008. Todo mundo dizia que não existia economia de apps. E então o mundo mudou. A mesma coisa vai acontecer com IA, diz Nuno
O aprendizado com os Estados Unidos
Laura: Quais verticais e nichos você vê como os mais promissores agora?
Nuno: Consumer é uma das áreas onde passamos mais tempo, talvez 30 a 40% dos nossos investimentos. Estamos vivendo duas transições demográficas simultâneas. A Geração Z está assumindo e os Alphas vêm logo atrás. Essas gerações cresceram com celular na mão. Não são só digitais, são mobile-first. O que isso significa é que as taxonomias de consumidores vão mudar completamente. A forma como o social funciona hoje não vai ser a mesma daqui a cinco ou dez anos. Gaming virou mainstream, mas está se transformando muito rápido.
SaaS também continua interessante, apesar de todo o barulho sobre o SaaSpocalypse. SaaS não morreu, está evoluindo com IA. Ainda vejo muitas oportunidades em SaaS horizontal e vertical que se encaixam na camada de aplicações de IA. ![]()
E tem uma área que ficou prometida há anos e nunca chegou. AR e VR (realidade aumentada e realidade virtual). Eu percebo que nós (humanos) tendemos a superestimar a velocidade com que chegamos a uma revolução e a subestimar o seu impacto. Com AR e VR, erramos no timing, achamos que chegaria antes. Mas o impacto, quando chegar de verdade, provavelmente ainda o estamos subestimando. Quando as pessoas pararem de ter o celular na mão e passarem a interagir com o mundo de outra forma (como óculos, por exemplo), tudo muda. ![]()
"A Geração Z está assumindo e os Alphas vêm logo atrás. Essas gerações cresceram com celular na mão. Não são só digitais, são mobile-first. O que isso significa é que as taxonomias de consumidores vão mudar completamente."
Laura: E o que diferencia a Chamaeleon na hora de escolher em quem investir? Como vocês navegam esse ruído?
Nuno: Nós temos uma vantagem injusta. Somos uma firma nativa em IA, o que significa que contamos com nossa própria plataforma e nosso próprio time de tecnologia. Há três anos atrás construímos nosso sistema operacional de venture capital – o chamamos de Mantis. ![]()
Um VC tradicional vê entre 250 e 500 empresas por ano. Nós vemos entre 10.000 e 14.000. Não porque temos mais gente, mas porque o Mantis roda e nos amplia em cada etapa do processo. Temos 7,7 milhões de empresas cadastradas e ranqueadas no nosso data lake. ![]()
E isso muda completamente a qualidade da due diligence. Vou te dar um exemplo concreto. Estávamos conversando com uma empresa no setor de consumo. Eu perguntei à fundadora, que era ex-CTO da Cisco, o que tinha acontecido com a retenção deles em setembro de 2024. Ela me explicou, por dois minutos, que mudaram o onboarding e fizeram ajustes de produto. E, então, ela parou e perguntou: “Como você sabe?” Essa informação não estava no deck. Não estava no data room. Estava no Mantis. ![]()
A diferença entre um retorno de 1x e um de 100x não é criada depois do investimento. É criada no início do funil. No deal sourcing, na due diligence, no momento de entrar. ![]()
Laura: Como a IA está mudando a forma como os fundadores constroem times em early-stage?
Nuno: Essa é uma das perguntas mais interessantes do momento. Nós mesmos chegamos a uma conclusão que nos surpreendeu. Em determinado momento, por diversas razões, ficamos sem pessoas júnior no time de deals. E percebemos que não precisávamos delas para executar. As pessoas sênior, quando dispostas a fazer trabalho individual com as ferramentas certas, Claude, Cursor, o que for, ficam muito mais produtivas. É como ter um júnior do seu lado o tempo todo, com toda a sua experiência guiando-o. ![]()
Isso está acontecendo em todo lugar. Amazon anunciou 14.000 demissões. Não é só o ajuste do excesso de contratação, embora isso também seja verdade. É uma mudança estrutural no que as organizações precisam. ![]()
Mas tem um detalhe importante. O único motivo pelo qual ainda vamos ter pessoas júnior no nosso próximo fundo é o modelo de aprendizagem. Os futuros sócios da gestora precisam ver as coisas acontecendo, os erros, os acertos. Sem isso, é muito difícil chegar ao próximo nível. ![]()
O que vai acontecer no mercado mais amplo é um reposicionamento de funções, não o fim delas. Vamos ver novas profissões emergindo. O cofundador do WhatsApp foi rejeitado pelo Facebook. Foi então que fundou o WhatsApp. O Facebook pagou caro por esse erro anos depois. Esse tipo de história vai se repetir muito. ![]()
"O que vai acontecer no mercado mais amplo é um reposicionamento de funções, não o fim delas. Vamos ver novas profissões emergindo. O cofundador do WhatsApp foi rejeitado pelo Facebook. Foi lá que fundaram o WhatsApp. O Facebook pagou caro por esse erro anos depois. Esse tipo de história vai se repetir muito."
Laura: O que está acontecendo fora dos Estados Unidos que merece mais atenção?
Nuno: Os Estados Unidos não são o centro de tudo. Em IA, por exemplo, há coisas muito relevantes acontecendo na Europa. Empresas como a Lovable são um bom exemplo. Na Ásia também. E na China, provavelmente a inovação mais radical em IA está acontecendo lá, mesmo que a visibilidade ainda seja limitada. ![]()
Mas há um padrão que me incomoda, e falo isso como europeu. Quando uma empresa de fora dos Estados Unidos cresce de verdade, ela vira uma empresa americana. Não porque as pessoas querem, mas porque o acesso a capital, a governança, a estrutura de Delaware C-corp, tudo puxa nessa direção. Então mesmo que a inovação nasça em outro lugar, as maiores histórias de sucesso tendem a acabar em solo americano. ![]()
Na América Latina vejo muita coisa interessante. O primeiro playbook foi o de copiar modelos americanos e adaptá-los localmente. Isso ainda tem espaço. Mas o que vai ser mais transformador é quando a onda de IA começar a produzir inovação genuína na camada de produto e tecnologia a partir daqui. Essa é a pergunta que vale acompanhar. ![]()
Laura: Como vocês pensam em exit value e valuation na hora de investir, num momento em que até 120 dias à frente parecem difíceis de prever?
Nuno: Fazemos análise estrutural de mercado primeiro. TAM, SAM, share de mercado, concentração, competição. O Mantis faz isso automaticamente com mais de 3.000 relatórios que alimentamos internamente. Se o mercado não chega a algumas dezenas de bilhões de dólares, não nos animamos. Porque, se o TAM é pequeno, o SAM é ainda menor e o share que uma empresa consegue capturar é ainda menor. ![]()
Depois, olhamos a valuation de entrada com muito rigor. Muitas firmas grandes, acima de 500 milhões de dólares de fundo, já não são mais VCs no sentido estrito. São hedge funds em mercados privados. Os retornos delas vêm de mid- e late-stage. Os fundos com menos de 100 milhões têm acesso desproporcional aos grandes retornos de early stage, e os dados o comprovam. ![]()
Nosso threshold mínimo de retorno é 10x pós diluição para qualquer investimento. Se o cenário de saída não suportar isso após a análise, não entramos. E de vez em quando fazemos apostas que chamamos de Grand Slam, em que o potencial é de 100x, com perfil de risco diferente. ![]()
Um sucesso overnight em uma startup leva oito anos. Às vezes mais. Saber esperar é parte do que nos diferencia. ![]()
A Chamaeleon é um dos gestores selecionados pela NIDO para o Platypus I, o fund of funds que conecta famílias brasileiras ao venture capital global. O Platypus I está em captação; caso queira marcar uma conversa, estamos à disposição.
