Hello, Hello!
Primeiro a camada, depois o gestor
Como Jensen Huang e Pat Grady me ajudaram a explicar sobre o desenho do Platypus
Quando me perguntam como escolhemos gestores para o Platypus, o que costuma surpreender na resposta é a ordem: começamos pela camada no stack de tecnologia, não pelo gestor. Decidimos em que parte do stack de tecnologia e inteligência artificial queremos estar, o que, na prática, é decidir a que público aquela tecnologia será vendida. Só depois procuramos, dentro daquela camada, gestores com diferencial de acesso e de know-how para avaliar as startups. ![]()
Levei um tempo para explicar por que essa ordem importa, até que assisti Jensen Huang, da Nvidia, e Pat Grady, da Sequoia, em recentes aparições chegando ao mesmo desenho por caminhos diferentes. Um vende a base do stack (infraestrutura); o outro investe no topo (aplicações). Os dois terminaram no mesmo conceito: difusão. Para explicar que o valor de um ciclo tecnológico não se concentra em quem constrói a tecnologia, e sim em quem consegue instalá-la no mundo, e portanto a relevância de quem consome ou adota. ![]()
Vou reconstruir o raciocínio.
O que os quatro ciclos anteriores ensinaram
Computador pessoal, internet, mobile e cloud seguiram a mesma sequência: primeiro, reconstrói-se a infraestrutura — hardware, redes, protocolos, data centers. Só depois nascem as empresas que capturam a maior parte do valor. ![]()
E nas quatro camadas de infraestrutura, o mercado cometeu o mesmo erro de leitura: tratou o pico de investimento em infraestrutura como se fosse o pico de adoção. ![]()
Jensen Huang descreveu inteligência artificial como um bolo de cinco camadas. Na base, energia – porque não se produz nada sem ela, e na prática, transformamos eletricidade em matemática ou capacidade computacional. Acima, chips. Acima, infraestrutura: os grandes data centers, terreno, energia e o prédio que abriga tudo, onde a eletricidade entra e a computação sai. Só na quarta camada estão os modelos (AI Labs). E no topo, a quinta: dados e aplicações. ![]()
A frase dele sobre essa arquitetura é a mais importante da entrevista: “a maioria das pessoas acha que os modelos são o que a IA é. Mas a parte mais importante da IA é a quinta camada.” ![]()
A lógica é a mesma dos quatro ciclos anteriores, o que muda é a escala. Segundo Huang, um data center dimensionado para um gigawatt de consumo elétrico custa entre US$ 50 e US$ 60 bilhões – e a maior parte desse valor equivale aos chips, servidores e sistemas de refrigeração. ![]()
Para efeito de comparação, Itaipu tem 14 gigawatts de potência instalada de geração elétrica e custou US$ 19,6 bilhões, o que equivale a cerca de US$ 60 bilhões em valores de hoje. Construir a máquina que transforma um gigawatt de eletricidade em computação custa aproximadamente o mesmo que construir a usina capaz de gerar 14 gigawatts. ![]()
A unidade é elétrica, não computacional e não é por acaso. A indústria passou a dimensionar e comparar data centers em watts porque a geração de energia é o novo gargalo. Hoje é a energia disponível que determina a capacidade computacional que o mundo pode empregar. É por isso que ela é a primeira camada do bolo. ![]()
A indústria está erguendo cerca de 100 gigawatts de consumo até o fim desta década, e só neste ano os Estados Unidos devem investir perto de US$ 1 trilhão em infraestrutura de IA. É onde está quase todo o capital e quase toda a manchete de jornal, mas não é onde o próprio Huang diz que está a parte maisimportante. ![]()
O que é diferente agora
A Sequoia parte do mesmo desenho, mas responde a outra pergunta: o que torna a transformação atual diferente das demais? ![]()
Em primeiro lugar, tamanho. A computação em nuvem praticamente dobrou o mercado de software em quinze anos, de cerca de US$ 350 bilhões para US$ 650 bilhões. A inteligência artificial amplia esse horizonte para algo entre US$ 3 e US$ 10 trilhões. ![]()
Mas o tamanho é a parte menos interessante. O que importa é a natureza da mudança. Internet, mobile e cloud transformaram a forma como a informação é distribuída. A inteligência artificial transforma a forma como a informação é processada. ![]()
Pat Grady usa uma imagem para isso: por anos, a tecnologia entregou cavalos mais rápidos – ganhos incrementais de produtividade sobre a maneira como o trabalho já era feito. O automóvel não foi um cavalo melhor. Ele mudou a natureza do trabalho, da produtividade e da própria organização das empresas. É essa a mudança que está em curso agora. ![]()
Onde a oportunidade se abre
Duas forças opostas. De um lado, a tecnologia avança tão rápido que uma startup pode ver sua vantagem competitiva virar commodity a cada novo release de um modelo fundacional. ![]()
De outro lado, pessoas e empresas mudam seus hábitos e formas de trabalhar muito devagar. Processo, contrato, cultura, compliance, treinamento, orçamento, nada disso acompanha o ritmo do modelo. ![]()
A distância entre essas duas velocidades é o que a Sequoia chama de Diffusion Gap: o espaço entre o que a tecnologia já permite fazer e o que empresas e consumidores efetivamente incorporaram. Para quem só só olha para a fronteira tecnológica, esse gap é extremamente frustrante mas é exatamente onde a criação de valor acontece: quanto maior a distância, maior o prêmio para quem conseguir atravessá-la. ![]()
Jansen Huang usa a mesma expressão – “diffusion gap”. Falando aos países do G20, ele diz que cada país deve escolher em que camada investir, mas que todos, sem exceção, deveriam defender “AI diffusion – a adoção de IA nas suas indústrias”. ![]()
Huang acredita que chegaremos ao AGI em poucos anos. Mesmo assim, argumenta que isso não resolve o problema das empresas. “Não é que daqui a dois anos eu conecto minha empresa a um serviço de IA e ela fica mais produtiva da noite para o dia. Isso simplesmente não vai acontecer.” Contexto, propósito, relevância e acesso são mais relevantes do que nunca. ![]()
Ou seja: mesmo com a inteligência resolvida, o trabalho de instalá-la continua sendo trabalho de empresa — contexto, processo, ambiente. É esse trabalho que o Diffusion Gap mede. E não é um problema que se resolve na camada dos modelos. ![]()
Esse gap não tem um tamanho único. Ele varia conforme quem está do outro lado: um hyperscaler adota em semanas, uma seguradora leva trimestres, um consumidor decide em segundos. ![]()
Camada medida pelo público que consome
Huang deu aos países do G20 um conselho que vale para os portfólios: “Cada país deve decidir em qual das camadas quer investir. Você não precisa ganhar em todas.” ![]()
E camada, aqui, não é apenas posição no stack técnico. É o público que adota as soluções tecnológicas. Cada camada tem um comprador diferente e é o comprador, não a tecnologia, que determina o ciclo de venda, a velocidade de adoção e, portanto, o tamanho do Diffusion Gap naquele ponto do stack. ![]()
- Infraestrutura: comprada por hyperscalers, grandes corporações e governos. Poucos compradores, muito grandes, decisão de capex e ciclo longo. A avaliação se aproxima mais da de infraestrutura do que da de venture capital.
- Tecnologias de fronteira: computação quântica, robótica industrial, IA física, novos materiais – compradas por instituições governamentais (laboratórios nacionais, centros de pesquisa corporativa, programas de governo) e um punhado de empresas pioneiras e indústria pesada. A adoção não segue ciclo de orçamento e marco científico ou de engenharia e por isso o horizonte é o mais longo dos quatro, dada a incidência de risco técnico elevado e janela de adoção incerta.
- Aplicações corporativas: compradas pelas áreas de negócio, com TI, jurídico e compliance como parte da decisão. É o Diffusion Gap na sua forma mais pura: a tecnologia já existe, o comprador ainda não está pronto. Ganha quem entende o processo do cliente, não só o modelo.
- Aplicações a indivíduos e pequenas empresas: compradas por pessoas, ou donos de pequenos negócios decidindo sozinhos. Não há comitê, procurement nem piloto orçado: a adoção acontece em dias, por autosserviço. Adoção rápida, retenção difícil, distribuição e experiência do usuário é tudo.
A camada define o público; o público define o modus operandi e a velocidade de adoção; e são esses dois últimos elementos que definem o tipo de gestor de VC capaz de operar ali. Quem sabe avaliar uma venda para o CIO de uma Fortune 500 não é, em geral, quem sabe ler curva de retenção de consumidores na primeira semana. ![]()
São quatro competências diferentes, quatro ciclos de amadurecimento diferentes e quatro conjuntos de critérios de avaliação diferentes. Os melhores gestores que conheço são profundos em uma delas e têm clareza sobre qual é. É isso que buscamos: dentro de uma camada escolhida, o gestor cujo acesso e know-how são difíceis de replicar. Por isso a diligência começa sempre pela mesma pergunta: em qual camada você realmente investe, e para quem, exatamente, suas empresas vendem? ![]()
Um exemplo: como escolhemos a camada de adoção corporativa
A camada de aplicações corporativas tem um público muito específico: quem decide sobre a compra de tecnologia em uma grande empresa. E, nos últimos anos, essa decisão migrou para uma nova cadeira. ![]()
Em 2020, apenas 3% das empresas da Fortune 1000 tinham um Chief Product Officer. Em 2024, eram 40%. A projeção para 2027 é 70%. ![]()
Esse número é o Diffusion Gap se fechando, medido em cadeiras de diretoria. Uma grande corporação não adota tecnologia porque o modelo ficou melhor. Ela adota quando existe, dentro dela, alguém com mandato, orçamento e responsabilidade para instalar e que responde pelo resultado. Nas Fortune 1000, essa pessoa passou a ser o CPO. ![]()
A Mighty Capital, gestora de San Francisco fundada em 2018 por SC Moatti e Jennifer Vancini, construiu toda a sua estratégia em torno dessa cadeira. O acesso vem da Products That Count, organização sem fins lucrativos criada pela própria SC, que reúne mais de 500 mil product managers e Chief Product Officers. Isso muda três coisas de uma vez: de onde vêm os negócios; como se valida se um produto resolve um problema real. O teste é a adoção por quem compra e quanto tempo a startup do portfólio leva para chegar ao comprador. ![]()
Um caso mostra o mecanismo inteiro em funcionamento. A BitDiscovery foi adquirida pela Tenable dezoito meses após o investimento, e o comprador era um CPO da própria rede. A mesma rede que origina, valida e acelera também é onde estão os compradores estratégicos. ![]()
Agora repare na ordem em que isso aconteceu do nosso lado. Não escolhemos a Mighty porque é um bom fundo de inteligência artificial. Escolhemos primeiro a camada – soluções de tecnologia para grandes corporações – e, dentro dela, procuramos o gestor que tem um diferencial grande de acesso ao público dessa camada e know how para entender as idiossincrasias da tecnologia e do público consumidor. É por isso que a ordem importa: definida a camada, a pergunta sobre o gestor deixa de ser subjetiva. Quem tem acesso real a esse comprador, e como se prova? ![]()
O Homem Como Medida de Todas as Coisas
O AI Ascent da Sequoia terminou com uma frase que parece filosófica: “o homem é a medida de todas as coisas”. Traduzindo para o nosso trabalho: nenhuma tecnologia tem valor em si. O valor aparece quando ela melhora a experiência de alguém e chega à escala. ![]()
É o teste que aplicamos a cada gestor e a cada co-investimento. A pergunta não é “quão avançado é isso”, e sim “quem, especificamente, vai adotar e o que impede que adotem amanhã”. ![]()
Onde estamos
Hoje o mercado olha demais para quem constrói inteligência artificial e de menos para quem vai acelerar sua adoção. É onde a Nido está posicionada: um portfólio desenhado por camadas – fronteira/deep tech, corporativo e consumo – com gestores americanos emergentes escolhidos por acesso verificável ao público de cada camada, e direito de co-investimento nas empresas que estiverem atravessando essa distância mais rápido. ![]()