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O jeito Nido de investir

Hello, Hello!

Nos últimos 15 anos, o mundo do Venture Capital passou por uma transformação radical — puxada pelo avanço tecnológico, pela digitalização em massa e, mais recentemente, pela inteligência artificial.

De 2010 a 2021, o volume global investido em empresas de tecnologia saltou de menos de US$ 60 bilhões por ano para mais de US$ 700 bilhões em 2021, segundo CB Insights e Crunchbase. O pico coincidiu com um ciclo de liquidez histórica, juros próximos de zero e uma mentalidade dominante: crescimento acima de tudo. Era barato testar, era barato errar. Desde então, vimos uma correção brusca. Os investimentos encolheram, os múltiplos recuaram e o discurso mudou: eficiência, rentabilidade, runway. Em 2024, os valuations parecem ter encontrado um novo equilíbrio. Mas aqui vai um alerta:

A estabilização dos múltiplos e enxugamento de liquidez trouxeram mais calma — mas não mais clareza.

Hoje, quase toda startup se apresenta como uma empresa de IA. Mas poucos investidores estão preparados para responder a uma pergunta essencial: o diferencial tecnológico aqui é real, escalável e sustentável… ou é só uma camada fina de automação? Com base em uma análise profunda dos múltiplos desde 2008 — usando dados do BVP Cloud Index, SaaS Capital, Aventis Advisors, Pitchbook, ScaleXP e o framework de PMF da First Round — o que vemos é um mercado mais maduro, porém ainda com pouca disciplina na conexão entre múltiplos de entrada e múltiplos de saída. Principalmente no Brasil.

É sobre isso que esta NIDO de hoje fala. Sobre múltiplos, sim — mas, principalmente, sobre a perspectiva do que está por trás deles.

1. Os múltiplos já se ajustaram. O entendimento, nem tanto.

Nos últimos dois anos, o mercado passou por uma correção significativa. Os múltiplos de receita recuaram em todas as frentes — do early ao late stage, do privado ao público. Mas a queda nos valuations não veio acompanhada de uma evolução proporcional no entendimento do que justifica ou não um prêmio.

O gráfico abaixo trás insights interessantes, além da óbvia correlação inversa entre taxa de juros e múltiplos, temos:

  • Período de juros baixos (2008-2021): prêmio de múltiplo para empresas maduras – late stage e public equity – em relação ao early stage entre 1,5x-2,0x.
  • Oscilação menor nos múltiplos do early stage – seed e série A
  • Descolamento das curvas de late-stage e public equity depois de 2021
graficoIlustra

O fato das curvas de late-stage e public equity terem se descolado depois de 2021 (hype) reflete um ajuste mais abrupto em ativos líquidos, o que ainda pode indicar ajustes futuros nos ilíquidos.

Por mais que os preços das rodadas em 2025 já não oscilem tanto, o nível de downrounds segue estável em 20% desde 2023 e o primeiro trimestre de 2025 trouxe o maior percentual de bridge rounds desde 2022. Tudo isso é sinal de que o mercado ainda tateia e ajusta expectativas. Aos ajustes de decisões passadas soma-se a dificuldade em avaliar com precisão o que é defensável, o que é hype e o que realmente merece prêmio — especialmente quando o pitch deck começa com “AI native” – ainda mais no early stage.

Aos ajustes relacionados às decisões de investimento do passado, soma-se a dificuldade em avaliar com precisão o que é defensável, o que é hype e o que realmente merece prêmio — especialmente quando a maior parte dos pitch decks começam com “AI native” – ainda mais no early stage. As “AI native” comandam múltiplos 1,5-2x maiores do que as empresas de SaaS tradicional.

Com a popularização da IA, a percepção de risco no early stage aumentou.
Agora, o perigo não é só pagar caro por uma expectativa de crescimento que pode não se concretizar — é pagar caro por um diferencial que não se sustenta. Quando quase toda empresa se diz “AI native”, o desafio está menos em precificar e mais em discernir: o que é diferencial legítimo e o que é apenas narrativa bem empacotada?

2. Os múltiplos no early stage ainda serão (e devem ser) mais altos do que nas saídas?

Mesmo num cenário mais cauteloso, o early stage continua negociando múltiplos superiores aos apresentados em transações de M&A. E é provável que isso continue, por três motivos estruturais:

a. Fundadores seguem resistentes à diluição, porque:

  • Os custos envolvidos em construir tecnologia não cairam, mesmo com IA;
  • O custo e demanda por talentos técnicos continuam elevados.

b. As expectativas de crescimento continuam superestimadas

O que temos é um mercado mais seletivo, com apostas mais concentradas. Em geral, o montante total investido segue constante desde 2023 mas o volume de rodadas é menor.

c. Soluções sofisticadas exigem rodadas maiores

Startups que trabalham com IA real — com modelos e algorítmos próprios — precisam de mais engenheiros, mais tempo de desenvolvimento, mais poder computacional.

Esses projetos demandam mais capital desde o começo. Por isso, o tamanho das rodadas continuam elevados — especialmente para os casos mais promissores.

3. Pagar prêmio pode fazer sentido — desde que a conta de saída esteja equacionada

Existem startups que merecem prêmio no early stage. Não só por estarem no mercado certo, mas, principalmente, por estarem construindo modelos de negócios e plataformas com aderência real ao futuro:
  • Algoritmos treinados com dados proprietários;
  • Lógica conversacional desde o core;
  • Tese de distribuição e potencial de construção de ecossistema com hipóteses validadas;
  • Potencial de efeito de rede e lock-in tecnológico.
Essas empresas vão a mercado com parte relevante da vantagem competitiva construída — e por isso, faz sentido pagar mais. O conceito de MVP (minimum viable product) mudou. O problema é pagar mais sem pensar na saída. Se o múltiplo de entrada for 10,0x e o de saída for 4,5x, a startup vai precisar crescer entre 5x em 5 anos (~85% ao ano) só para entregar o equivalente ao hurdle do fundo. Se o fundo obrigatoriamente tiver que devolver o capital em menos tempo para seus cotistas, em 3 anos, por exemplo, a expectativa de crescimento deveria ser de 2,5x ao ano. Se isso for improvável dentro do ciclo do fundo, o cheque não deveria ser assinado. Esse é o cálculo que poucos fazem. E é por isso que muitos fundos ficam presos em ativos bons demais para morrer, mas ruins demais para sair. Para os empreendedores, o novo contexto também traz desafios claros: um volume menor de startups recebendo investimento e rodadas maiores, mostra que os investidores estão mais reticentes a casos menos óbvios de sucesso e buscam reduzir risco com o conforto de rodadas maiores, para times com maior comprovoção de eficiência operacional. E, no Brasil, isso importa ainda mais Por aqui, os juros (hurdle) são mais altos e as janelas de saída são menores. Os compradores estratégicos são mais escassos. Os IPOs, raros. A simetria de informação é menor — e o otimismo, às vezes, maior do que a disciplina permite. Se nos EUA esse tipo de erro pode ser absorvido por uma dinâmica e volume de liquidez maior, aqui, ele pode contaminar a performance de um fundo inteiro.

O que a NIDO acredita

A NIDO tem um olhar especial para ecossistemas como estratégia de construção de barreiras de entrada e crescimento sustentável. Nós olhamos para todos os critérios tradicionais de avaliação de uma startup – time, produto, tamanho de mercado, expectativa de crescimento, escalabilidade das operações, entre tantos outros – para chegar em um valuation coerente a cada oportunidade, sempre sob a ótica da tese proprietária da Nido. Quanto mais rica a perspectiva de construção de um ecossistema robusto, e quanto mais alinhada estiver a nossa visão com a dos founders, mais conforto teremos com um prêmio, se for o caso.

Além desse olhar sistêmico, nós sabemos que a verdadeira criação de valor da IA se manifesta em quatro áreas principais:

Vantagens de Dados Proprietários

• Conjuntos de dados exclusivos que melhoram com o uso;
• Efeitos de rede na coleta de dados.

Inovação Algorítmica

• Modelos personalizados treinados para casos de uso específicos;
• Vantagens de desempenho demonstráveis em relação a soluções genéricas;
• Proteção de propriedade intelectual ou segredos comerciais.

Integração de Plataforma

• Integração profunda com plataformas de IA emergentes (OpenAI, Anthropic, etc.);
• Vantagens de pioneirismo em novas categorias habilitadas por IA;
• Custos de troca que criam fidelidade do cliente;

Inovação Conversacional e de Fluxo de Trabalho

• Interfaces de linguagem natural que mudam fundamentalmente a experiência do usuário;
• Automação de fluxo de trabalho que oferece ganhos de produtividade de 10x;
• Novos paradigmas de interação que criam produtos capazes de definir novas categorias.

Por mais que nos seja difícil avaliar a qualidade dos dados acessados e a qualidade dos algorítimos criados, nós conseguimos, através de conversas com experts e conhecedores de setores específicos e cadeias de valores, entender se, o que times e startups de AI estão prometendo criar, solucionam com mais profundidade e sofisticação, se comparados ao conjunto de alternativas existentes até o momento.

Por fim, a nossa busca por um modelo de atuação alternativo em VC, está correlacionada a visão de que otimizar retorno depende de maior flexibilidade e oportunismo.

Porque investir bem é menos sobre acertar o timing e valuation perfeitos. Mas sobre saber, desde o começo, o que o meio do caminho vai exigir.

Referências:
BVP Nasdaq Emerging Cloud Index (2018–2024), SaaS Capital Index Reports (2022–2024), Aventis Advisors – SaaS Market Valuation Tracker, PitchBook – State of Venture Reports, ScaleXP ARR Multiples Benchmark 2024, First Round Capital – Levels of PMF, CB Insights – Global VC Trends, Crunchbase – Global Funding Reports.

Vamos juntos?

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